domingo, outubro 23, 2005

"O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor."
F. Nietzsche

quinta-feira, setembro 15, 2005

ofício

Embarque


Em tempo ainda...

Há tempos atrás.

Por tempos passados.

E pelos nossos antepassados.

Por vida passada.

Por fome de vida.


Retorno a possibilidade da nudez. Há tempos não voltava a este corpo textual para mostrar-me o quão diferente as situações haveriam de produzir situações, e além disso a correria do dia-a-dia impossibilitava este exercício mais elaborado de nitidez da vida.
Escrever é um exercício imenso de uma procura por um estilo ainda inimaginável, é como se eu estivesse cego dentro de um buraco fundo na terra e cravasse minhas unhas na tentativa de sair dessa buraco, que, além de escuro é sujo e ainda por cima cego estou.
Uma luta insessante por conseguir de alguma forma trilhar um caminho único, que eu mesmo possa reconhecer como novo. E a sensação de frutração ao fim de uma torrente de palavras é tão imensa, que talvez por isso ainda exercite este ofício.
Por várias vezes saio deste corpo quando leio estes textos e parece que outro os escreve. E pior, os acho ruim, superficial, se pretendem enquanto profundo, sério, doloridos. Mas nada são que montes de frases soltas sem uma construção.
Transparência seria a bola da vez então. Em todos os campos já os pratico, penso que falte neste momento à minha escrita. Não sou transparente na escrita, quero copiar um estilo na vã possibilidade da construção do meu próprio estilo, e isso soa demasiado fraco e sem personalidade, mas sendo assim é verdade. Que posso eu neste momento? Apenas tentar, tentar e tentar mais e mais. É o que sobra de tudo. As tentativas, mesmo que falsas, são tentativas de algo. Escolhas, caminhos e esse monte de baboseira que todos estão carecas de ver e ouvir sairem de minha boca qual nascentes de rios.
Há quem procuro, para quem escrevo, há quem quero amar?
Perguntas que não param de passear pela minha cabeça.
Está na hora de mudar mesmo, e agora me digo já que estou a trilhar novos caminhos e ainda soe falso dizer certo, mas caminho com pés e mãos feito um cachorro cego. Quando é que a calma e placidez a todos atingirão? Nem devia me preocupar com isso, como no passado novamente acho que as minhas visões são as mais bonitas do mundo, que meus pobres textos os mais profundos e sangrentos e que minhas palavras cortam as carnes. Nada disso! Sou um idiota, mas feliz estou por ter chegado ao fundo do posso e cego cá estou. Calmo espero o dia raiar. Talvez assim, mesmo cego possa sair deste buraco e calmamente construir um texto que seja... a me contemplar.
Aos navegantes...Boa viagem!

Eu parti ontem, para o infinito. Levo comigo o cesto de doces e salgados. Não sei quando volto e se volto.
Beijos

Desembarque

quarta-feira, agosto 10, 2005

texto antigo "Obediência ao impulso cego", de fev/05

Embarque


"Tive que me atirar à correnteza, sabendo que provavelmente iria afundar. A grande maioria dos artistas está se atirando com salva-vidas ao pescoço, e quase sempre é o salva-vidas que os faz afundar. Ninguém que se entregue voluntariamente à experiencia pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da odediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer. Toda lógica do universo está contida na ousadia, isto é, na criação a partir do ponto de apoio mais inconsistente e reduzido. No início, essa ousadia é confundida com a vontade, mas com o tempo a vontade esmorece e o processo automático assume o seu lugar, e este, por sua vez, tem que ser interrompido ou abandonado para que se instaure uma nova certeza alheia ao conhecimento, à habilidade, à tecnica ou à fé. Pela ousadia chega-se a essa misteriosa posição X do artista, e é esse porto seguro que ninguém consegue exprimir com palavras, que no entato perdura e destila cada linha que se escreve."

"No seu espantoso estado atual, o homem parece ter uma atitude, a fuga `a temores, mas, o que é pior, teme os seus temores. Tudo parece infinitamente pior do que é, diz Howe, "só porque estamos tentando fugir". Esse é o verdadeiro paraíso da neurose, uma cola feita de medo e ansiedade, à qual, a não ser que queiramos nos salvar, poderemos ficar presos para sempre. Imaginar que seremos salvos por intervenção externa, quer sob a forma de um analista, um ditador, um salvador, ou mesmo Deus, é pura insensatez. Não existem barcos salva-vidas suficientes para todos, e, de qualquer forma, conforme aponta o autor, precisamos de muito mais de faróis do que de salva-vidas. De uma ampla visão e mais clara - e não de aparelhos de segurança!"

"O Homúnculo tem muito medo de ser soterrado, mas o Grande Homem espera sê-lo; o Homúnculo recusa-se a engolir um tantinho de sua experiência, encarando-a como má, mas o Grande Homem a ingere todo dia, mantendo a casa aberta para o inimigo entrar; o Homúnculo fica aterrorizado de que possa passar da luz para a escuridão, do visível para o invisível, mas o Grande Homem percebe que é apenas o sono ou a morte e qualquer dos dois é a própria prática de sua recreação; o Homúnculo depende dos "artifícios" ou do golfe para o seu bem-estar, procurando médicos ou outros salvadores, mas o Grande Homem sabe pelo processo profundo de suas convicções íntimas que a verdade é paradoxal e que ele está mais seguro quando menos defendido...A guerra da vida é uma coisa; a guerra do homem é outra, sendo a guerra pela guerra, a guerra contra a guerra, numa regressão infinita de argumentos ofensivos e defensivos."

Todos trechos extraídos de "a sabedoria do coração" de Henry Miller

...

Caminhar por estes dia tem sido uma prova alteração da minha percepção e um certo movimento de volta à meu próprio ser. Cada passo que dou recheia-se de dor, sangra e escorre rasgando mais e mais minha doce carne, mas tirar proveito disso faz a vida ser talhada e fazer algum sentido.
Buscar o sentido da vida, e buscar a dor. Sentir a necessidade de batalhar é se entregar a uma vida mais dolorosa e tanto mais gratificante e contempladora.
Estes dias tem sido de dor, lágrimas, auto-reconhecimento, abraços e luz.
Continuarei a destilar meu doce gosto pela vida, e assim a temperar a paisagem citadina com minha presença, mesmo que sufoque certas expectativas e caia de joelhos pedindo clemência. Sofrer e caminhar, obedecer ao meu instinto...a aquela voz que pulsa no fundo de meu ser, ela que direciona algumas de minhas atitudes e que todos os dias constroe os princípios do que sou, e do que hei de ser.
Vencer é perder...
ah...o senhor Miller tem me ajudado muito, a ti agradeco grande Senhor.

Desembarque

Herculano Netto

domingo, agosto 07, 2005

Pois é

Pois é
M. Camelo
Los Hermanos 4

"pois é, não deu
deixa assim, como está, sereno
pois é de deus tudo aquilo que não se pode ver
e ao amanhã a gente não diz
e ao coração que teima em bater

avisa que é de se entregar o viver
avisa que é de se entregar o viver

pois é, até onde o destino não previu
sem mais, atrás vou até onde eu conseguir

deixa o amanhã e a gente sorri
que o coração já quer descancar
clareia minha vida, amor, no olhar
clareia minha vida, amor no olhar"

terça-feira, julho 26, 2005

"Darling be home soon" por Joe Cocker

Embarque


A trilha sonora da feliz derrocada desta tarde.



Darling Be Home Soon - Joe Cocker


Come
And talk of all the things we did today
Here
And laugh about our funny little ways
While we have a few minutes to breathe
Then I know that it's time you must leave

But darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

And now
A quarter of my life is almost past
I think I've come to see myself at last
And I see that the time spent confused
Was the time that I spent without you
And I feel myself in bloom

So darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

[Instrumental break]

Darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

Go
And beat your crazy head against the sky
Try
And see beyond the houses and your eyes
It's ok to shoot the moon

So darling
My darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to


Desembarque

escorreu

Embarque

A espera do soar telefônico, algo tão distante quanto galáxias. O trinco trancado a espera pela chave correta a ser introduzido pela fresta da vida a destravar a loucura dos corações em fúria.
Horas se passaram naquela noite a qual estava deitado como morto semiconsciente a chorar por entranhas situações vivenciadas.
Inquieto, e há um comichão no pensamento me impede de pensar na rua, ou nas bolsas. Penso na chave que destravará a minha felicidade, e tão distante ela parece estar que me entrego a vastidão de uma indisposição ao respouso.
A saudade é algo que perdura mesmo quando não sabemos mais como o futuro talhará os caminhos dos próximos capítulos. Aqui ainda há esperança. E o engraçado e lembrar de trocentas situações que na qual todas são à mente chamadas pela lembrança que a própria lembrança da pessoa amada nos fez passar, ou melhor, fazer algo em tal situação. É assim com telefonemas ao sair de uma instuição qualquer que sufocasse um coração radiante, inflamado por amor. Contar os minutos, para ouvir por poucos minutos uma voz distante do outro lado, mas que semeava um jardim tão grande dentro de mim que engradecia este que vos fala. Os aparelhos telefônicos quando problemáticos passavam a serem parte reinante da ira particular de momentos nos quais eu não achasse um maldito telefone público a discar um determinado número que pós troca de vozes, perfilaria em meu ser e introduziria nele uma imensa carga de uma coisa tão boa e grande, que parecia ter comido dez pratos de arroz com feijão e pronto sairia para enfrentar o mundo de peito tão aberto, que de tão exposto aos medos alheios, tais sentimentos fugiriam da terra.
Engraçado sentir isso e lembrar como sorridente corria ao encontro de ônibus em ruas encharcadas por lágrimas e lama, afim de o mais rápido possível chegar no lugar da conversão do olhar. Do achar-se engastando-se no outro. Me sinto feliz por lembrar disso, por sentir que o amor inundou como nunca antes este individuo.
Fazendo-me sangrar de tanto amar. E correndo ao encontro de telefones públicos eu ficava como criança a correr atrás do balão que lá no céu voa, tão distante quanto o amor, mas tão lindo quanto seu voar desmedido e simples.
Eu sou aquele que amou, que se predispôs a derrubar as barreiras das situações e as próprias barreiras do ego. Aquele que chorou, resmungou, vomitou, sujou, jogou, violentou. Pelo seu próprio corpo e pela dor que sentia enquanto o vácuo me recheava.
Fui tostado num clarão de eletricidade quando coloquei-me na posição de franco atirador. E atirado a esta situação descobri braços não conhecidos, mas que eu não os sentia abraçando-me como dantes fora.
Amar e ser amado. A promessa que fazemos inconscientemente ao nascer, já que nascemos pelo fato de sído concebidos no ato do amor, da entrega total descomedida ao corpo estranho, mas esse estrangeiro nos conhece tão bem que passeia por nós a brincar num grande playground de prazer suspirando pelos nossos suspiros.
Miséria é não poder amar com todos os orgãos, necessitar o sopro do hálito que me envolve como num lençol branco, macio e quente. Envolto nesse odor adentro teu corpo quente e ele me chama, grita pelo meu nome e vou até o fim. A disposição volta, com raiva de vida de fazer tudo de uma nova forma. De procriar, jogar tudo aí, na mesa da vida num jogo de cartas cego, que escolhemos pelo tato, pela sensação mais aprazível.
Eu sou aquele mesmo, como Whitman, nú. Este sou eu. Não Herculano, Joe, Jimmy, Fernando, Gilberto, Márcio, e assim por diante.
Eu sou eu. Eu tento sempre e me rasgo de raiva por ter de acordar cedo, choro ao ouvir Joe Cocker e Elvis Costello. Eu acredito no nosso poder da diferença e para isso basta vontade. Eu sinto, luto, choro, morro, vomito. Eu vivo cada dia como uma amálgama de de dor e resignação, mas luto contra a confusão. Não quero morrer nunca e choro aqui e agora por querer me engastar a terra e virar o tudo de todos. Minhas lágrimas escorrem querendo pregarem no chão, no solo, mas não deixo. As chupo de volta a meu corpo. Se púdessem ver o que vejo agora, acreditariam que talvez a vida possa valer a pena., e faz 10 minutos que aqui sentei, sem saber o que dizer, como e porque.
Navegaria por esta canção por milênios a nunca mais me perder dela, nunca mais. A gritar como ele canta a viver como eu vivo, e a chorar como ninguém chorou neste terreno.
Que em situações meu estomago não diminuísse, que eu passasse por estas provações de vida sofrida, que nos faz amar e odiar a vida. Mas sempre na positividade, na proposição.
Proponham!
Lutem!
Eu choro pela pobreza que vejo nos olhos das pessoas e choro pela alegria dos olhos das crianças, engulo minhas próprias lágrimas sabendo que ainda não é tempo de me repousar ao solo e ruínas de carne transformar. Gritaria por oras se púdesse. E quem disse que não posso? Gozaria por oras, gozaria alegria e plantaria sementes nos lugares onde meu semém depositasse.
Eu quero mesmo! Diferença todos podem fazer e ainda bem que respiram como eu respiro, deposito em mim a minha única possibilidade de saber o que farei do meu futuro. Se soubessem o que eu sinto ao ouvir esta canção. Perdoaria todos os pecados, e que todos os fracos de espírito púdessem sentir isso que sinto exatamente neste momento que fica parado em minha memórias e mais lágrimas escorrem pela minha barba.
Eu sou um rochedo feliz! Estou feliz e quero mais e mais ficar feliz. Dêem-se as mãos e orem por nós, pelo agora. Tudo podemos naquele que acreditamos, naquele que construímos. Em nós. Oremos, lutemos pelo homens e mulheres de nossas vidas. Perdoemos à todos.
Pela vida quero gozar e me engastar nas tuas entranhas quentes a fazer do nosso untado o óleo da felicidade. Eu quero amar. Posso estar velho e piegas para isso. Daqui a semanas posso discordar destas linhas, mas pouco importa. Daqui a semanas posso estar, preso, morto embalsamado. E o que pensado, sentido tenha de ser dito e sem esferas de poluição dos diálogos vindouros. Água azul e salgada escorre de nossas entranhas minha doce querida. É o mar. A vida.
A grande canção de nossos corpos é o "big ben" (sic) que nos conduzirá ao paraíso. Me entrego, esôfago, intestinos, penis, falanges, lágrimas. Eu sempre me entrego e sofro por isso, e sou feliz por isso. Por conseguir ser o que sou, não sei o que rola agora, mas não consigo segurar nada, numa torrente a descer do morro tudo escorre me carregando e violentado meu corpo rumo ao mar, ou a um fundo de vale qualquer.
O que eu tenho? Apenas um pulmão e um coração que teimosamente bate, bate, infla se enche de ar, sangue. Que ambos se encham de força é isso mesmo, eu quero viver para sempre, não morrer nunca...

Desembarque

segunda-feira, julho 25, 2005

Insônia

sexta-feira, julho 22, 2005

Um velho

Embarque


Esvaziado

Arquiteto do fim dos dias e da comiseração. O acaso arranca meus pés do chão e num tufão carrega este corpo para longe, o mais longe dos lugares. Estou mudando, talvez retornando a algo do passado. De um passado muito distante para vocês. Onde toda a dor era sentida através da própria escolha por ela. Arquiteto, ou melhor, andarilho. Andar somente andar. Caminhos não precisam mais com força e dor serem esculpidos. Sentar e chorar pra quê? Digam-me para quê! Melhor estar a serviço da corrente dos dias vindouros. Agarrar-se a própria sorte, deixar que o mar consuma o que resta de digno e formoso de uma impressão. Que os ácidos, desencavem destas sujas carnes algo que não seja as impressões passadas e sedimentadas a meses pelo medo da minha entrega a meu destino.
Delega-se ao contexto a foice da morte dos nossos deuses. Diante deste diagnóstico idiota, vos entrego a palidez, indiferença. Não mais lágrimas.
Tive visões, que resgatava um chicote e vergastava minhas costas em sinal de entrega a meu destino. Vi também um velho cego que mostrou-me uma foto. Disse-me ele que a água da chuva tinha corroído o rosto da pessoa da foto, e que essa pessoa era eu. Que eu tinha sído corroído pelas torrentes gotas que caiam do céu.
Não chorei. Sábia o que tinha feito. Um enorme bolo juntou-se em meu estomago e de lá saí correndo. Tentando insistentemente vomitar, mas apenas saliva em forma de espuma de minha boca saía, e um fétido hálito. Ele disse que eu morreria após a saída destes liquídos, mas que renasceria se cuspisse tudo ao alto. Corri por cidades a chegar a desertos, a vastidões de terras áridas e me via na paisagem pobre. Mais magro e pobre. Sabia que morrer duraria dias e não conseguiria matar-me, pois nada havia alí a não ser terra seca. Morreria de inanição.
Quando o velho reapareceu um raio vindo do céu rasgou-me o corpo, e no sequente segundo, um calor. A descer de minha cabeça a queimar pés e mãos. Não chorei, este era meu destino. Estava feliz por entregar-me de vez, por deixar meu corpo suavemente ser carregado pelo movimento da maré.
Não havia mais estomago para lutar, pois nada mais teria de ser consumido e transformado em energia para a luta. Nais mais cansaço havia, nem fome, esperança, dor, felicidade. Transformei-me num monolíto no deserto.
Apenas algo a mostrar o que tinha sído muito gritado e pouco feito. O quão grande tinha-se transformado e vazio.
Meses se passaram. Abro os olhos e ao lado escuto o ranger dos ossos, e o descer das lágrimas. Estou num vale de lama deitado e ciente. Não há mais necessidade da ajuda e da força. Num mosaico em forma de filme vejo as pessoas passarem pela minha vida, sem pedir nada em troca, nem companhia.
Quando o antigo velho dos confins próximo ao deserto tinha mostrado a foto a mim, tinha me alertado para a própria morte. Uma morte diferente, que possivelmente se processasse por dias e por situações. Também disse do tal mangue de lágrimas. Que renasceria disso e que mudaria por nutrir-me dos alimentos deste lamaçal.
Zerado. Zero à esquerda. Gosto de lama na boca, lama salgada. Volta a chover e não mais lágrimas cairão do céu. Por mim mesmo alcunho o rochedo feliz. A rocha fria que estagnou-se em minhas lembranças a apenas compor o enterro.
Um enterrado vivo. A remoer-se dum passado distante, e que hoje arrepende-se do próprio monolíto.

Desembarque

Herculano Netto

terça-feira, junho 28, 2005

Nada

Embarque

Nada o que colocar para fora, nem vômito. Cansaço não é colocado para fora. São movimentos peristálticos da preguiça afim de morrer por alguns parcos minutos numa tarde chuvosa. O vidro escorre o semén de Jesus que escorre após ele ter espirrado sua grande mangueira verlmelha sobre todos nós.
E dá-lhe a gritaria na companhia cosmodemoníaca de transporte coletivo (Salve, Miller) e eu tento em pé cochilar por alguns minutos e mais formigas entram no vagão, pareço suar frio.
Pareço feliz?
Pareço satisfeito?
Apenas pareço e desapareço!
Precisamos todos vagar. Mas um vagar desprendido de tudo o que se busca. Tudo é inalcansável, quanto mais de tenta, mais de machuca.
Lei do minímo esforço.
Quem nos dera capacidade para que assim fôssemos. Não adianta corremos atrás de tudo. Nem mesmo vejo mais o dia passar. Dentre celas a celas vejo o alvorecer a falo como um papagaio bebâdo sem beber.
Indiferença. Talvez seja essa a chave para a passagem dos minutos.
Indiferença.
Cansaço.
Ânsia de vômito.
Tardes perdidas.
SOnhadas e sentidas.
Pútridas e feridas.
Suco gástrico
Herculano Netto

terça-feira, junho 14, 2005

tarde de filme e sol

Embarque

Uma tarde saborosamente degustada à espera da ocupação e assim meio que pego de bobeira a assistir uma romântica película o cair do dia. A reinserção dos olhares, a motivação e oxigenação dos brônquios, desobstrução da vida.
Vontades buscadas no fim daqueles gavetas poeirentas, envoltas em envelopes pardos escondendo os corações rasgados.
E tentaram ser soterrados pelas possíveis escolhas. O mosaico maluco tentam pintar, o modos se sobrepõem uns aos outros as impossibilidades de antigamente colocam-se de outra forma.Afundamos todos e deixamos o suave movimento das águas nos carregar para a infinitude da esperança e uma noite de sono mal dormida, mas sonhada, pensada, gozada, experimentada de saudade e muita saudade.
Peito cheio de ar, inflando para gritar. Um urro de raiva e alegria. A possibilidade de provar do gosto da vida.
A real vida, a substância amarga do dia-a-dia, mas saudável a quem por mais vida precisa ser vista.
Vida, vida, vida. Um amontoado de sensações à espera de conceituações e um passeio numa tarde.
despretensiosa,
instigante,
dedos entrelaçados,
bocejos,
envoltos em braços morremos e nos ouvimos. Sim! A nossa máquina encarnecida bate. E sempre espera, mesmo que caminhando a outras pradarias, o ouvido ser colado no peito para ser festejado a batimentos.
Dispostos na vastidão de lençóis usados e entalhados momentos esperam ser concluídos e talhados novos e felizes sorrisos aguardam serem acordados lindos como sempre foram numa manhã de sol primavera que nos inflam os pulmões por vontade de vida.
Saber que algo vale a pena é alimento a ser dividido entre os entes vivídos que querem lastrar suas vidas pelos verdejantes campos do senhor homem.
De volta a antiga casa?

Desembarque

Herculano Netto

terça-feira, junho 07, 2005

Teimosia

Embarque

Suando. Perdendo horário. Dormindo pouco.
Sendo expectador de um assalto. Reluzindo o canhão de aço ao meu lado brilhava insistentemente e assim ainda olhava a aquele tipo de luz.
Montes de lembranças amontoam-se na minha cama quando deito e vejo o firmamento iluminar a minha vida, mesmo numa noite escura que o que brilha é o julgamento dos gatos noturnos, lutando pelos doloridos prazeres.
O ponteiro vermelho enganador olha-me sabendo que logo cedo o estarei observando espumando de raiva, pedindo que logo a morte se abata sobre este que vos fala. Não como saída, mas paz, silêncio. Solidão.
Multivisões num diapasão noturno. Estado no qual expomos nossas vãs experiências.
Um desenho animado de criança. Olhos sendo insistentemente arranhados por pó. Um cachorro carrega um carrinho pelas pálpebras.
A mesma coisa de sempre. O mesmo cansaço. A mesma indiferença.
Subindo as escadas vejo os olhos reluzindo de esperança. Cuspo nas faces da ignorância e ânsia de vômito permeia os sentimentos e os vapores.
Álcool?
Não senhores!
Silêncio, caixa verde, livros, lápis, discos, fitas, gavetas.
Gavetas! Engavetaram nossas felicidades, dentro dela reluz, além do revólver do indivíduo desta manha, cartas, fotos, cheiros, texturas, significados.
Uma geladeira num necrotério frio e convidativo a solidificarmos um outro reino.
Cá estamos nós, sozinhos, cansados mas vivos. Latejando em vida sempre. Perceba a grandiosidade da persistência pela vida.
Teimosia.

Desembarque

Herculano Netto

domingo, junho 05, 2005

Tarefas, obrigações, responsabilidade.

quarta-feira, junho 01, 2005

Transbordar e retornar. Incondicional.

Embarque


Adquiram a forma de produzir o maldito espaço!
Não é um dado apriori.
A espera continua, mas espaço precisa ser produzido. E tentação se faz no dia a dia.
Produza o tal do espaco, ele é ausência ou presença de sujeito.
O dado apriori é irreal. Retomo é apenas ausência ou PRESENÇA de um dado sujeito.
O amor forja espaço por mais espaço.
O sangue que escorreu de mim forjou uma couraça de papel higiênico.
Por que?
Por que é amor.
Precisa a mesma couraça ser destruída por quem de direito se apresente.
A espera sufoca e conter essa espera é um castigo para quem precisa do transbordo.
Transbordar. Retornar



Eu transbordo...
E vou recebendo a chuva...

Eu transbordo
sim, eu sei...

Sem dar vazão...
Eu transbordo...

Vou correndo sangrando a sua procura para estancar minha represa,
ou a ela destruir de vez.

Eu transbordo...
não meço as consequências
e uma enxurrada me compraz a ser assim.

Incondicional.

Eu transbordo...
e como um pequenino peixe que busca desovar no alto do rio,
luto contra a correnteza.

Eu transbordo...Sim...
Como aquele caminho d'agua que revolto,
destrói tudo que a seu caminho se prosta.

Mas a vida, torna-se vida, quanto mais sofrida se for vivida.




Não contenham o amor!
Ele perfaz nossa vida de dor.
Viva a via láctea do amor.
A sofrer por mais amor, cuspo meu labor.



Desembarque

Herculano Netto

terça-feira, maio 31, 2005

Arthur Rimbaud

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem?
A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

domingo, maio 29, 2005

impossível, fumaça, pigarro.

Embarque

A temperatura exterior caindo e a interior subindo num rompante indescritível por toques.Mas mesmo assim ainda certa solidão perdura, mesmo podendo por mil abraços estarmos envolvidos o silêncio ainda permeia o horizonte gélido da vida.Num final de semana buscamos experiências, ok? Sim. Isto posto, transparente como água. Lutamos afim de encontrar algo que valha a pena. De bar em bar, rua a rua, em suma destilando olhares na arte da própria projeção do ego.Afinal do que é que estou a falar?Sobre impossibilidades apenas isso. Assim nos apresenta a vida. O mundo das impossibilidades e quando tentamos insistentemente quebrá-las, nos machucamos profundamente.Tente para ver no que dá! Mas coloque-se. Expresse a tentativa na sua vida. Não em rompantes regados ao vapores do álcool somente. Também. Mas faça de suas tentativas as possibilidades da felicidade instantânea.A não ser que o medo ainda nos permeie, sendo assim, retorne ao infinito campo da comiseração e da própria sorte.Tenhamos pena de nós mesmos! Por medo ou insatisfação não conseguimos rasgar as amarras da vida.Construir sempre. Bloco a bloco. Assentando o terreno, dia após dia. Velando a vida juntamente com a terra adubada.Nada perdurará sem o jardineiro. Um jardim sem jardineiro não existe. Idealismo. Metafísica.Despregar-se das categorias da vida. Da sujeição as situação elevando ao absoluto o que é sempre construido.Tá frio e sou um forno esperando a lenha. Sempre serei. Sou quente por natureza, por substancia. Por ser o que sou, tudo sou neste que vive. Nada mais, nada menos.Obrigações não as consegui vencer, dias e mais dias se passaram e não consegui dar cabo de certos labores que a mim são depositados. E ligo quanto a isto? Não.A vida se extende muito mais que momentos de insistentes tentativas laborais afim terminar com tais obrigações.O preço é sempre alto. Que elevamos o nosso preço então.Que tudo ao alto seja jogado, e presentemente visto quando ao chão ser beijado.
Desconexo.

Desembarque, destravem-se, desandem, destoem, despir-se.

domingo, maio 22, 2005

Horas e dias são apenas alguns minutos. Nada mais que isso.

Embarque


5h15
8 vezes 40 é igual a quanto mesmo? Hmmmm. 320? Sim isso.
Trezentas e vinte pessoas numa rápida passada de olho em todos os olhos que nos olham esperançosamente por alguma coisa. Falar, falar e falar.
Encher um quadro de informações e falar, falar e falar. Vendo o quadro de bocejos e dentes amarelados e acariados pelo tempo de vida.
Engraçadinhos transvestidos de força e rigidez comportamental.
Não tentemos entender!
O giz tingi minha roupa a cada entrada em salões da desesperança.
Um par de seios tingidos por sardas a serem imaginativamente desgustados pela minha lingua. Apesar da amargura da tal proprietária e de sua rigidez falsamente trabalhada atrás de uma mesa de mogno escuro.
Um senhor com olhos pequenos, que de tão pequenos os faz ser um dos mais idiotas que já vi em minha vida. Por esse fato não deve enchergar direito.
Silêncio ainda? Sim! E por sempre para sempre.
Uma fileira de perdigotos lançados em segundos e um olhar penetrante. Recados, risadas.
O gestual é colérico. Alguém nos entende?
Entender pra que? Nós fazemos as mesmas perguntas sempre e sempre as mesmas meia respostas e digam-me para que tudo isso?
Eu sei ninguém responderá. Sei que sou teimoso, insistente e disso retiro as melhores faculdades deste ser que aqui escreve. A categoria de sempre ir além.
Segurança, propriedade e responsabilidade. Não confunda com um materialismo vulgar.
Será que eles entenderiam?
Nem mesmo a própria condição entendem.
Alienados.
Intervalo = Inferno. Trinta minutos a ter de compartilhar com todos eles. O par de sacolas de carne tingidas de sardas às vezes aparece e some em seguida com seu andar malediciente.
Retorno à cela. Os presos pulam, algazarram e gritam a plenos pulmões como se cada um deles estivessem tomado uma grande carga de cocaína pura a fazer dos mesmos macaquinhos loucos na jaula.
Vagarosamente observo os movimentos de tão superficial riu com eles. Todos tão pequeninos e tão tristes. Ainda devagar abro o espectro das nossas histórias alienantes afim de mais perdigotos pularem.
Ufa
12h20.
Reúno os documentos, cansado e suando a picas pelos cotovelos retorno a caverna escura e lá todos estão a ruminarem suas vãs experiencias.
Um dia, uma hora, alguns minutos sozinho.
Horas e dias são apenas alguns minutos. Nada mais que isso.

Herculano Netto
Desembarque

sexta-feira, maio 13, 2005

Cedam!

Embarque


A diferença de choque que alguns minutos de vento na face faz é imensa. E a observação da paisagem seja ela qualquer. Desde uma pequenina sala até um par de ancas sacudindo-se num bailar erótico temperando as lúgubres ruas.
A voz é mesma. A pessoa. O protagonista faz e refaz seu caminho buscando sentidos. Outrora o desespero e o caos. Hoje o silêncio do não dito.
Apenas a lembrança de horas de sensações lascivas. A canção dos corpos se debatendo quais enguias fora d'água felicitando seus orgãos genitais pela presença do outro. A alteridade é construída na junção dos fluídos que antes temperavam as ruas e noutro momento a temperar nossas entranhas e a sede que sentimos é infinita.
Sempre mais e mais. Não fujam jamais de seus destinos. O mundo gira, como um amigo disse-me, pelo movimento das estocadas de nossos mastros na morada quente e molhada do canal da felicidade instantãnea.
A cada feroz estocada o movimento de rotação se perfaz num ritmo novo e o mundo procura se estocar e ser estocado, numa aritmia que de movimentos incertos mas certeiros no fundo das bocas úterinas.
Cedam todos! Aos nossos orgamos procuramos em todos os caminhos de nossas medíocres vidas. E o que sobra é apenas alguns momentos de lembranças na solidão de uma cama vazia e uma mente abarrotada de imagens de uma foda instantânea e feliz.
Fodemos todos! Fodemos com nossos devaneios solitários de experiências loucas em situações não antes experencializadas. Fodemos todos! Pela vida terrena e pelo fim da procura pela salvação que nunca virá. Já ouvi isso antes. Não haverá barcos salva-vidas para todos. Entreguem-se aos desejos mais sujos que passeiam por nossas mentes quando aquele par de ancas se misturam a nossa visão.
A coisa pulsa no meio de todas as pernas. Enerva-se se não consegue uma morada e cospe em todos num sonho vazio. Numa cama vazia provamos do que não somos capazes.
O mosaico da vida se junta num grande suporte branco. Tintas, pincéis e todo material necessário ao aquarelamento de certas figuras. Uma grande folha branca esperando a tinta cair e assim a tonalizá-la de várias formas. Situações vividas ou não? De que importa, se pobres somos na entrega a outros corpos.
Dedos, Unhas, pinto, buceta, mãos, lava, corrimentos, muco, cu, gosto, lábios, vasos, veias, lingua, dentes, quentura, amor, sexo, saco, ovos, olhos, sombrancelha, orgasmo, esperma, boca. Fuga.
Me entrego a fuga de meu corpo por mais corpos e por mais texturas, gostos, gestos enfim...por mais e mais e sempre mais pessoas.
Novas, velhas, conhecidas, desconhecidas, juntas ou separadas. Afim estão? Da entrega total por horas numa cama qualquer mesmo com pulgas, pregas, pintos, pegadas, pulsação e paulatinamente a introduzir em nossas mentes novas formas de amar fodendo com o que se espera.
A mesma voz em movimento não parece ser reconhecível, pois o movimento modifica e a vida não pára.
Um salve! A estocadas. Rotação e Translação.
Caos! Esperando pela ordenação.

Herculano Netto

Desembarque

terça-feira, maio 03, 2005

Sobre jardins e jardineiros

Embarque

"O que é que se encontra no ínicio? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo o pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro"
Rubem Alves

Desembarque

terça-feira, abril 26, 2005

texto antigo

Embarque

A fala

…de repente ao descer as escadas, fui violentamente empurrado.
E forjei-me de metais para não me arranhar ao cair.
Será assim que devo começar? A insônia não me explica e nem ao menos dá uma indicação para responder tais dúvidas.
07/10/04 são 00h59m.
Daqui 4 horas estarei de pé. Na verdade 4 horas e alguns minutos. Ver todos aqueles rostinhos, a sangrar pelos seus olhos impossibilidades, esperas, dores e porque não dizer esperança.
Daqui a 4 anos estarei de pé. E sem muito porque, ou mesmo (sabe-se lá) sem saber a respirar ainda completarei os ciclos biológicos que costuram meu corpo.
Mas pode ser que daqui a 4 dias, algum jornal qualquer relate mais uma nova guerra, por mais poder.
Poder...o que é Poder, ou poder?
Eu posso? Mesmo? Devo?
Gostaria de poder dormir e ter Poder. Assim direcionaria meu sono para algum lugar que não conhecesse e por lá ficasse até os fins dos dias.
Silêncio é poder, ou Poder?
Silêncio é o poder da ausência, do não dito. Ausência do sentimento, do fluxo sanguíneo.
O Poder do silêncio é poder relatar a morte.
A morte é a ausencia de Poder, sendo um Poder em si mesmo-mudança.
A mudança é o fim da morte e o começo da vida.
O homem é a morte.
Eu sou a morte. Eu sinto a morte.
A cortar-me, como um feixe de água gelada, imerso a ela estou.
Como numa imensa queda d’água-falta de ar-
O não dito dos vencidos. O dito dos derrotados...assim caminhamos a passos largos a lugar algum, nenhum.
A opressão da fome, as migalhas que a mim são jogadas.
Somos como pombos. Presos na cidade imagética da liberdade. Nem como os antigos pombos correios somos. Não mais voar conseguimos, e comemos restos de pastéis e lanches das ruas centrais do enclausuramento da urbanidade. Sem asas, e sem Poder.
Sem vontade e sem amor.
Sem sono, mas com vida
Com amor, mas pela morte
Pela morte, mas pela mudança
Com ardor, nossos bustos inflam
Mesmo pela morte, sem furor
Tudo pela vida, com a morte
Com suor, sangue e lágrimas.

Vi os pés daqueles senhores descalços a andar insinuamente pelos cacos de vidros, a rachar o solado do céu, e a cada momento a rasgar em seus corpos a herança de vidas passadas.
Também andei. Fui até a escada, descalço também, e nú. Pelo que me lembro carregava uma caixa que quando era aberta brilhava a todos, mas não me recordo de que material carregava, e de onde vinha. Lembro que ia a todo vapor, correndo. Assim vi os senhores descalços e seus solados sangrados.
O labirinto de espelhos.
O fogo que corta o céu e me cega as vistas.
O afogamento dos incontinentes.
O vislumbrar do cortejo fúnebre.
A dança sinuosa da serpente.
O vômitos dos insaciaveis.

E a minha incapacidade de me controlar e aos outros não machucar.
Digo adeus. Assim, possamos um dia construir um norte comum a todos.


O não dito

Desembarque

pés e movimento

Embarque


O alvorecer de uma voz única requer noites e mais noites de insistência e persuasão do próprio ego em constante diálogo consigo próprio. Ao invés dessa fornicação forçada a foda propriamente dita tem de ser transformada ritualmente num tratado com a alma pura. Pura depois de se ter passado por todos os estágios. Da nascença a putrefação. Talvez assim possa a voz única ser conhecida. Do contrário, penso eu, será um amontoado de idéias pré-concebidas nos gabinetes de compartimentação das nossas vidas.
Árduo trabalho este. Aferir a voz silenciosa do reino da imaginação afim de investigá-la e tentar extrai-lá do invólucro das influências. Longo percurso a ser caminhado nú e descalço. A supremacia e genialidade para alguns é como o alvorecer e o por do sol. Explico melhor.
Das horas que se passam no movimento, o indivíduo forçado a querer se torna o algo busca inconfudivelmente aquele posto. Por isso dias após dia, treina, exercita, recapitula, anota. Faz e perfaz um movimento que em sua caixola sabe-se lá quando automático se tornará. Cada lembrança a este indivíduo se torna uma bíblia do conhecimento a ser milimetricamente desfiado e desfiando esta memória chegamos ao ápice do escavamento que nos déspi e nú estamos diante das maquinas. A esperarem pacientemente nossos comandos. Um fóssil sobre a mesa. Milhões de anos e uma incompreensível escala de tempo. Uma história esperando um pintor a aquarelar o infímo. Poder mesmo deve ser esse pintar o incompreensível, o não notado por ninguém e expressar em palavras o que as mesmas não são. Um fluxo infinito. Pequeno ou grande? Sabe-se lá quando irá parar e se parar que todos farão?
Devaneios e mais pensamentos, memórias, momentos. Partículas do fato. Gotas num oceano de lágrimas.
A exposição do corpo nú no necrotério ou numa casa noturna. A miséria, desde a morte do corpo em si até a morte da paixão do corpo em nós. Tudo é sempre mais além. Bem mais adiante e cabe a mim andar e ver o raiar do sol até o fim do dia e exercitar o ato de aquarelar a vida. A minha vida.
O balançar dos pés num movimento nada uniforme mas que uniformiza a mente no transcurso de um pensamento obsessivo de sensações afim de serem movimentadas pelos mesmos pés. Numa sala refrigerada mais parecendo um lugar depositário de mortos a vida se faz em movimentos e olhares.
O vai e vém, vai e vém, vai e vém e assim por diante a dias infinitos dias que tomam cores de noite nos devaneios em ruas esburacadas barrentas. Dedos e unhas os vi balançando a poucos metros de distancia.
Deveria tocá-los e brincar com eles, massageá-los até que os mesmos desmaiassem em meu ventre e repousassem por milhões de anos.
Andar a exercitar o aquarelar de minha vida. Desperto e nú. Excitado e vivo. A respirar e sentir o pulsar de meu coração em vossas vulvas quentes.
O suor a escorrer pingando nas rochas transformando-os em solo fértil. Um salve a vida.
Ao acolhimento de todos os corpos e que a quentura destas misturas seja o fermento de novos dias.

Herculano Netto

Desembarque